Rio Antigo, e outras mais...
  04/07/2006
Cais da Prainha





Esta é uma panorâmica da Prainha, feita por Marc Ferrez, a partir de uma embarcação, em torno de 1890. Reconhece o lugar? Fica bem mais fácil para quem sabe que, hoje, este lugar é conhecido por Praça Mauá.

Agradeço a idéia ao Derani, que também postou duas fotos deste local em seu Rio de Fotos, em 30/06 e 03/07.

Antes da construção do novo porto, no início do século XX, era este o aspecto de toda a orla do porto do Rio de Janeiro. Nada convidativa, não é mesmo?

A foto foi publicada no maravilhoso “A Marinha por Marc Ferrez – 1880-1910”, editado em 1986 pela Editora Index e Estaleiro Verolme.

A legenda da foto, neste livro, é:
“PRAINHA E MORRO DA CONCEIÇÃO C.1890 – À esquerda, o morro de São Bento, tendo embaixo o edifício do Arsenal de Marinha (vê-se a estação das barcas que levavam passageiros à praia de Estrela no fundo da baía, para tomarem o trem para Petrópolis). O grande prédio que se destaca quase no centro da foto foi o que abrigou a Escola de Marinha, de 1849 a 1867 (hoje, ali, se ergue o edifício de “A Noite”, na praça Mauá). Logo à direita, em primeiro plano, o casario da Saúde, ao fundo à direita, o Corcovado.”

O prédio do Arsenal de Marinha está lá até hoje, com quase o mesmo aspecto.

Já o prédio da Escola de Marinha, ocupando os números 1 e 2 da Rua da Saúde, depois de reformado, foi reinaugurado, em 1884 (antes desta foto, portanto), por D. Pedro II, como o prestigiado Liceu Literário Português, hoje instalado no Largo da Carioca. Sobre a Escola de Marinha (e outras escolas de formação de oficiais militares), recomendo uma visita ao site do Informativo Guararapes.

Sobre o nome "Prainha", ele ainda sobrevive na Igreja e no Largo de São Francisco da Prainha. Este, aliás, um dos berços das escolas de samba.


As fotos de Marc Ferrrez, com negativos enormes, permitem um detalhamento maravilhoso. Graças a isso, posso mostrar (abaixo) 2 ampliações muito interessantes de detalhes desta foto.

A primeira mostra o mesmo cais mostrado pelo Derani, com a inscrição “Prainha”, de onde partiam as barcas para o Porto da Estrela, caminho para Petrópolis. O vapor atracado era com propulsão por rodas e seu nome parece ser “Mauá”.

O segundo detalhe mostra as instalações do “Lloyd Brazileiro”, patrimônio quase centenário do nosso país desbaratado, juntamente com a indústria naval brasileira (que chegou a ser a segunda do mundo) pela má gestão dos governos dos anos 80. Ninguém é tão desastrado assim por acidente...







Escrito por Flávio Sertã Furtado de Mendonça em 04/07/2006
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  01/07/2006
A Central do antigo Brasil (2)





Apenas com a intenção de completar o post de ontem, trago mais 2 imagens, de épocas bem diferentes das que mostrei ontem.

A primeira, acima, é um gravura do século XIX, quando a Estrada de Ferro ainda era chamada de D. Pedro II e o trem era o único meio de transporte que podia ser chamado de rápido. Mas pode-se ver que a estação em si já era, basicamente, o prédio fotografado por Malta. Esta gravura foi publicada na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros - Volume XXIII (Rio de Janeiro), editada pelo IBGE em 1960.


A segunda foto é uma bela panorâmica feita do Morro da Providência, que mostra toda a extensão do Centro do Rio de Janeiro, em 1950. Aparece em destaque nesta foto a então nova Estação Central da Estrada de Ferro Central do Brasil, vizinha do também novo Ministério da Guerra. Esta foto foi publicada na revista Brasil Constroi, num. 8, de fins de 1950.

Ontem, escrevi sobre a lateral do antigo prédio do Ministério da Guerra. Esta parte do prédio pode ser vista, perfeitamente preservada, nesta panorâmica. Acrescentei, mais abaixo, um detalhe ampliado da antiga Praça Christiano Ottoni e da lateral do Ministério da Guerra. Do outro lado da praça, parte da "nova" estação.

Para quem quiser curtir mais detalhes desta panorâmica, estou postando, em resolução mais alta, em meu site no Flickr.






Escrito por Flávio Sertã Furtado de Mendonça em 01/07/2006
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  29/06/2006
A Central do antigo Brasil





O Derani vem apresentando, em seu Rio de Fotos e em seu Flickr, uma ótima série sobre as adjacências do que viria a ser a Av. Presidente Vargas. Nos últimos dias, mostrou a Central do Brasil, o Ministério da Guerra (antigo QG do Exército) e o túnel Dr. João Ricardo.

Trago mais 3 fotos de Augusto Malta, referentes à Praça Christiano Ottoni, que fica entre a Central do Brasil e o Ministério da Guerra, para complementar.

A primeira foto, acima, documenta uma manifestação ao Dr. Artur Bernardes. Pela existência, na praça, de um palanque, tendo a supor que a manifestação seja de apoio.

A campanha presidencial de 1922 é tida como uma das mais exaltadas da nossa exaltada república. Artur Bernardes era presidente do estado de Minas Gerais e concorria com Nilo Peçanha, ex-presidente e candidato da oposição. As oligarquias de São Paulo e Minas vinham se revezando no governo federal e haviam escolhido o mineiro Artur Bernardes, com Estácio Coimbra como vice, apoiados, é claro, pelo governo de Epitácio Pessoa. As oligarquias do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia decidiram lançar Nilo Peçanha.

Em outubro de 1921, época da foto, ia no auge aquela que viria a ser chamada de "crise das cartas falsas". Foram divulgadas cartas atribuídas a Artur Bernardes contendo vários comentários contra os militares, particularmente contra o Marechal Hermes da Fonseca. Realmente, Artur Bernardes era ferrenho inimigo de mega-investidor Percival Farquhar (que fez a Madeira-Mamoré e foi o grande responsável pela eclosão da Guerra dos Pelados). E os negócios de Farquhar tinham progredido muito durante o governo de Hermes da Fonseca.

Os militares, que já estavam desgastados com Epitácio Pessoa, entre outras coisas, por ter nomeado um Ministro da Guerra civil, passaram a apoiar Nilo Peçanha maciçamente. O tenentismo começava e o episódio dos 18 do forte é dessa época. Neste sentido, de nada adiantou ficar provado que as tais cartas haviam sido forjadas. Os militares continuaram mobilizados contra Artur Bernardes.

A foto é deste momento. Imagino que se trate de uma manifestação de apoio a Artur Bernardes. Feita no Rio, terra de seus opositores, diante do Ministério da Guerra, casa de seus desafetos. Daí um policiamento tão grande.

O fato é que Bernardes ganhou a eleição, em Março de 1922, foi empossado em estado de sítio, em 15 de novembro de 1922, e governou 4 anos em permanente estado de sítio. Teve que governar de uma cidade que não tinha votado nele, defendido por um exército que se considerava seu inimigo. E, naquele tempo, os políticos ainda sentiam o "cheiro do povo".

Note-se que, apesar de toda esta instabilidade e insegurança, o Rio de Janeiro passou por um de seus períodos de mais obras e renovação, graças à Exposição do Centenário da Independência.

Chamo atenção para as árvores do Campo de Santana, que ficava "logo ali", já que bastava atravessar a estreita Senador Euzebio.


As outras 2 fotos, abaixo, mostram dois momentos de obras na Praça Christiano Ottoni: 1920 (nesta foto vê-se a Rua Dr. João Ricardo, 2 anos antes da inauguração do túnel, também mostrado por Derani) e 1928. O prédio da Central do Brasil, hoje, é completamente outro, mas tenho quase certeza que boa parte do prédio do Ministério da Guerra, que aparece à direita, ainda existe. Foi, aliás, alvo de algumas das primeiras perguntas da comentada comentarista Evelyn. Uma outra foto, mais recente, fica para outro "post".

(Todas as fotos foram publicadas em "Fotografias do Rio de Ontem", da Prefeitura do Rio de Janeiro)






Escrito por Flávio Sertã Furtado de Mendonça em 29/06/2006
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  27/06/2006
Nasce a Rui Barbosa







No Saudades do Rio, o Luiz D' mostrou uma belíssima foto da enseada de Botafogo, com um único edifício (o Pimentel Duarte), vista da Avenida Rui Barbosa. É claro, ainda sem o aterro do Flamengo. E Botafogo sem os aterros de 1950 e da década de 60. Recomendo uma ida até lá e aos links que o Dr D. indica.

Temos algumas fotos da construção da Av. do Morro da Viúva, hoje Av. Rui Barbosa. As 2 primeiras, acima, feitas por Augusto Malta, mostram as obras já na fase de calçamento. A avenida foi conquistada da pedra e do mar. Aquele canto do Flamengo era a chamada praia da Olaria. E a pedreira, no começo do Morro da Viúva, já vinha sendo explorada há tempos. O granito para o Obelisco da Avenida Central teria sido extraído daí. Como também para alguns dos umbrais do Largo do Boticário. Este desgaste do morro foi complementado com aterro, delimitado por uma muralha de pedras, para formar o terreno para a avenida que contornaria o Morro da Viúva.

Chamo a atenção para a altura de onde Malta tira a segunda foto. Imagino que ele esteja, com seu equipamento nada pequeno, em cima de um dos guindastes, provavelmente na lança. É verdade que, em uma das fotos mostradas por Luiz D', havia uma casa, mais antiga, no meio do eixo da rua, mas acredito que ela já tivesse sido demolida a esta altura da obra.

Tudo isso durante o governo de Carlos Sampaio como prefeito (07/06/1920 a 15/11/1922), em paralelo com tantas outras obras feitas para a Exposição do Centenário da Independência. A construção do Hotel Sete de Setembro, nesta avenida, também era destinada às festividades da Exposição. Este hotel teve vida curta, passando, em 1926, a ser o internato para as alunas da Escola de Enfermagem Anna Nery, da UFRJ. Depois, em 1973, passaria a ser a Casa do Estudante Universitário - CEU, entrando em processo de decadência acelerada. A UFRJ vem desenvolvendo a revitalização do prédio, com bastante sucesso.

Recomendo muito uma visita ao site do projeto da UFRJ, principalmente à página dedicada à história do prédio.

Vamos, então, ver abaixo 2 fotos, um pouco mais antigas que as 2 acima, feitas durante a construção do Hotel Sete de Setembro. Curiosidades:
- a construção do chamado Prédio Anexo, onde ficariam os salões e o restaurante, com pé direito de 8 metros, estava muito mais adiantada que a do Prédio Principal;
- houve, aparentemente, algum tipo de pequeno incêndio na parte externa do Prédio Anexo, que está sendo re-emassada; uma parte de um muro está parcialmente derrubada;
- o carro usado por Malta e por alguma outra autoridade que visitavam a obra, com pneus de banda branca impecável, era da famosa Garagem Avenida, como se pode ler no estepe; a licença daria um belo milhar: 2424;
- no chão da pista, pode-se ver os trilhos provisórios usados para transporte de vagonetes em todas as obras de porte na época; estes trilhos também podem ser vistos nas primeiras fotos;
- a anotação na segunda foto do hotel foi vítima de uma pitoresca preguiça: H. 7. 7bro- e Rio, data ilegível;
- na segunda foto mostrada acima também se vê o Hotel 7 de Setembro, mas em estágio bem mais adiantado.





Vamos a mais 2 fotos, como bônus?

A primeira delas é também atribuída a Malta, mas feita, como se vê, de uma embarcação. Já vi esta foto ser datada como 1929, mas o andamento das obras é absolutamente coerente com as fotos anteriores, de 1922. Inclusive quanto à extensão da amurada que ainda não tinha sido feita. A pessoa que fez as anotações nesta foto não é a mesma que costuma fazer nas demais fotos de Malta (acredito que ele mesmo). Quando escreveu a data, teve nítida dificuldade, escrevendo alguns algarismos invertidos. A leitura do ano como 929 é (muito) duvidosa.

A última foto é mais recente. Cerca de 26 anos depois, em 1948/49. Vê-se que, quase 60 anos atrás, já se via muito pouco do Morro da Viúva. Para os flamenguistas, aí está a então nova sede do Flamengo em construção. Meu primeiro baile com smoking foi aí, no fim dos anos 60. Debutantes. Mais à direita, no Flamengo, o edifício do IAPB (corrigi, aqui, a informação anterior, que dava como IAPETEC), recém construido, se destaca.

(A última foto foi publicada na revista Brasil Constroi, do Ministério de Viação e Obras Públicas, num.3, Julho/1949. As demais fotos, todas de Malta, publicadas em "Fotografias do Rio de Ontem", da Prefeitura do Rio de Janeiro.)






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Escrito por Flávio Sertã Furtado de Mendonça em 27/06/2006
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  24/06/2006
Guardai os vossos pandeiros, guardai





De novo, vou seguir a dica do Derani. Ele mostrou, no Rio de Fotos, uma simpática Praça Onze, na década de 30. Vamos neste tema, também.

A primeira foto (de Augusto Malta), provavelmente a imagem mais conhecida do local, mostra a Praça Onze de Junho em 1910, pouco depois da inauguração de novos jardins, com as árvores ainda bem mirradas. Do lado oposto, já estava a Escola Benjamim Constant.

O nome da praça vem da data da vitória na Batalha de Riachuelo, durante a Guerra do Paraguai. A Praça era conhecida, antes, como Rocio Pequeno. Recomendo a leitura do ótimo verbete Praça Onze, na Wikipédia.

A segunda foto (também de Malta) é de 18 anos depois (1928), e documenta o andamento de obras na Praça. As árvores já fazem da praça um lugar muito mais agradável.

Sou capaz de apostar que estes automóveis estacionados são "carros de aluguel" (taxis).

Apesar de eliminada para a construção da Avenida Presidente Vargas, a Praça Onze ficou eternizada principalmente por ter ser considerada o berço do samba. Tia Ciata, que morava na Praça Onze, é o ícone maior entre as antigas "tias bahianas". Sua casa, mostrada na última foto, era considerada a capital daquela Pequena África no Rio de Janeiro. O título deste post vem do samba "Praça Onze" feito por Herivelto Martins e Grande Otelo como hino de despedida para a velha praça. (Foto publicada em "A Era das Demolições", de Oswaldo Porto Rocha - Coleção Biblioteca Carioca - Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro)










Temos que mostrar nossa indignação pelo roubo, no Arquivo da Cidade (AGCRJ), de peças importantes do patrimonio cultural do Rio de Janeiro, incluindo boa parte das fotos de Augusto Malta.

Peço a todos para fazer a maior divulgação possível do inventário mostrado pelos funcionários em
http://www.rio.rj.gov.br/culturas/site/fr_noticia_roubo.php



Escrito por Flávio Sertã Furtado de Mendonça em 24/06/2006
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  23/06/2006
Palmeiras no Mangue







Para enriquecer a série que o Derani vem apresentando em seu Rio de Fotos, nos dias 19, 20 e 21 de junho, sobre o Canal do Mangue, margeado por 4 fileiras de palmeiras imperiais, trago algumas fotos da década de 1920.

As 2 primeiras fotos, acima, foram feitas por Augusto Malta, provavelmente em maio de 1924, para documentar uma operação de limpeza de ruas. Já se vê que várias das palmeiras desapareceram, principalmente do outro lado do canal. Para uma melhor localização, o galpão quadrado que aparece à esquerda ficaria hoje no final das oficinas do Metrô. Bem em frente a ele, do outro lado do Canal, ficaria o prédio dos Correios. (Gosto muito dos ônibus da primeira foto.)

A localização fica mais fácil ainda com a foto seguinte, aérea, atribuída ao Ten. Kfuri e publicada na revista Careta de 2 de março de 1929 (e no Rio de Janeiro - Ontem & Hoje 2, de Alberto Cohen, Sérgio Fridman e Ricardo Siqueira). Nesta foto, já se pode até fazer um inventário da palmeiras. Principalmente na margem oposta do Canal, o desfalque já é muito grande.

Deixo uma última foto, de Malta, como desafio. Ela documenta, também, uma operação da Limpeza Urbana, na mesma época que as 2 primeiras. O desafio, é claro, é identificar o local da foto. E o pior é que não tenho a certeza se minha resposta está certa. A foto mostra até a placa da rua, mas, nem em alta é possível ler. Vamos lá...










Temos que mostrar nossa indignação pelo roubo, no Arquivo da Cidade (AGCRJ), de peças importantes do patrimonio cultural do Rio de Janeiro, incluindo boa parte das fotos de Augusto Malta.

Peço a todos para fazer a maior divulgação possível do inventário mostrado pelos funcionários em
http://www.rio.rj.gov.br/culturas/site/fr_noticia_roubo.php



Escrito por Flávio Sertã Furtado de Mendonça em 23/06/2006
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  22/06/2006
Outros Estragos - 1921




A ressaca de julho de 1921 causou estragos em toda a orla do Rio e de Niterói. Já mostrei algumas fotos feitas por Malta na Av. Atlântica, em 18 de julho, com a ressaca ainda batendo forte.

Hoje, ainda temos mais 2 fotos, agora dentro da Baia de Guanabara. A primeira, acima, feita ainda em 15 de julho, mostra parte da destruição que a ressaca fez na Av. Beira Mar, relativamente nova, e que foi um dos primeiros trechos do Rio de Janeiro tomados do mar. Os danos são pesados. Apesar do calçamento parecer inteiro, pode-se ver que ele cedeu pelo menos 20 centímetros, o que mostra que o mar tinha removido material do aterro, por baixo do calçamento.

É muito interessante este trecho de Lima Barreto, citado por Beatriz Resende (ver Rio de Janeiro, Cidade de Modernismos, pg 3/5):

Não posso deixar de lembrar da série de ressacas que Malta fotografa durante a construção do Passeio Público, rebeldia do mar, comentado por Lima Barreto em crônica de 1921 na revista Careta:

"A última e formidável ressaca que devastou e destruiu grande parte da Avenida Beira-Mar merece considerações especiais que não posso deixar de fazer. (...) os grosseiros homens do nosso tempo, homens educados nos cafundós escusos da city londrina ou nos gabinetes dos banqueiros de Wall Street não lhe quiseram ver a grandeza (do mar) e trataram de explorá-lo. De há muito que ele havia marcado os seus limites com a terra; de há muito ele dissera a esta: o teu domínio pára aí e daí não passarás. (...) Tais homens, porém, a pretexto de melhoramentos e embelezamentos (...) trataram de estrangulá-lo, de aterrá-lo com lama.

O mar nada disse e deixou-os, por alguns meses, enchê-lo de lama. Um belo dia, ele não se conteve. Encheu-se de fúria e, em ondas formidáveis, atira para a terra a lama com que o haviam injuriado."



Mostro, ainda, abaixo, outra foto de Malta, feita no cais do Mercado Municipal, no dia 14 de julho, no início da ressaca que durou vários dias.








Temos que mostrar nossa indignação pelo roubo, no Arquivo da Cidade (AGCRJ), de peças importantes do patrimonio cultural do Rio de Janeiro, incluindo boa parte das fotos de Augusto Malta.

Peço a todos para fazer a maior divulgação possível do inventário mostrado pelos funcionários em
http://www.rio.rj.gov.br/culturas/site/fr_noticia_roubo.php



Escrito por Flávio Sertã Furtado de Mendonça em 22/06/2006
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  21/06/2006
Atlântico X Atlântica - III (1924)





Malta documentou, também, mais estes estragos, em 14 de outubro 1924. O Copacabana Palace, inaugurado em 13 de agosto de 1923 (era uma segunda-feira, não uma sexta), tinha pouco mais de 1 ano. E já tinha enfrentado uma outra ressaca, em 1922, durante sua construção.

Os estragos parecem ter sido, pelo menos neste trecho, maiores que os da ressaca de julho 1921, que é tida como mais forte. Talvez por que tenha causado mais estragos em outros pontos da cidade.

Aqui, não só a calçada foi destruída, mas também uma boa parte da pista. Mais adiante um pouco, pode-se ver um pequeno pedaço em que a calçada, a pista e a cortina de contenção resistiram inteiros. Por que foram mantidos juntos pela tubulação de água pluvial que passa por baixo. Neste pequeno trecho, pode-se ver a altura da cortina de proteção que tinha sido construída e que foi completamente arrastada. Mostro estes detalhes abaixo, em ampliação.

Aproveito para chamar a atenção para os pedaços da Pedra do Inhangá que ainda existiam na areia da praia.


A última foto não foi datada por Malta, mas acredito que seja a mesma ressaca, documentada dias mais tarde, já com vários equipamentos instalados para as obras de recuperação. E uma instalação elétrica feita em postes temporários, de madeira. Esta foto parece ter sido feita justamente sobre o pedaço de macadame que mostrei no detalhe.

Vejam outra boa foto de Copacabana, em ressaca por esta época, feita pelo bisavô do Roberto Tumminelli, no seu Carioca da Gema.


Estas fotos encerram minha documentação fotográfica sobre as ressacas em Copacabana. É claro que as ressacas continuaram causando estragos durante muitos anos, até o alargamento da praia feito em 1969/70. Os estudos para este alargamento foram cuidadosamente simulados no melhor laboratório hidrológico do mundo, em Portugal. O mais interessante que ouvi sobre estes estudos é que, no primeiro modelo construído, a praia teria desaparecido completamente, mostrando que havia alguma incoerência entre o modelo e a realidade. Quando acrescentaram as ilhas Cagarras ao modelo, só então, a Praia de Copacabana voltou a existir.







Escrito por Flávio Sertã Furtado de Mendonça em 21/06/2006
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  20/06/2006
Atlântico X Atlântica - II (1921)







Em 1921, pouco menos de 2 anos depois das obras de alargamento serem terminadas, outra ressaca causou grandes estragos na nova avenida. Como sempre, Augusto Malta estava lá, em 18 de julho de1921, para documentar os prejuízos e o início das obras de contenção e recuperação, mesmo com a ressaca ainda batendo forte.

Mostro 5 fotos desta visita de Malta. Algumas das coisas que podem ser vistas são:
- a calçada externa, com o padrão "Copacabana", transversal, ainda nova;
- o acabamento externo da calçada, em granito, que é, hoje, o meio-fio do calçadão junto aos prédios;
- o Hotel Londres, visível em várias das fotos, era provavelmente o primeiro prédio da Avenida;
- a pedra do Inhangá, um pouco cortada, ainda tinha uma parte visível na areia;
- a construção do Copacabana Palace começaria uns poucos meses depois.

A última e sexta foto mostra mais uma vez o Leme, com a recuperação concluída.












Escrito por Flávio Sertã Furtado de Mendonça em 20/06/2006
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  19/06/2006
Atlântico X Atlântica - I (1919)







O Tumminelli, em seu Carioca da Gema, em 12 de junho, e o André Decourt, no Foi um RIO que passou, em 16 de junho, mostraram o tema ressacas na Av. Atlântica. Pegando carona, e ampliando a documentação, começo uma pequena série sobre este assunto, que é tão interessante e já foi um problema tão sério para a nossa cidade.

A primeira parte da série é sobre a ressaca de 1919, mostrada na foto do Foi um RIO que passou. A grande ressaca de 1919 foi no mês de Março, mas não foi a primeira e nem de longe a última. A primeira foto acima foi feita alguns meses antes, em 09 de dezembro de 1918, no Leme. Mostra uma das tentativas de evitar os danos causados pela violência do mar - uma cortina de concreto. Pelo menos é o que diz a legenda da foto, conforme publicada em "Fotografias do Rio de Ontem". No momento da foto, só se pode observar um escoramento provisório de madeira, talvez como preparo para a construção da "cortina".

Vê-se bem que ainda não havia a calçada junto à areia, como comentado pelo André Decourt. Um pouco mais adiante, podem ser vistos um poste tipo lampião de gás, uma casa em construção e, bem diante da casa, um dos 6 Postos de Observação ("postes" de salvamento), que foram instalados neste mesmo ano de 1918, com o respectivo guarda sol, fechado. Ver um destes "postos" em detalhe, mostrado pelo Luiz D' em seu Multiply. Observem que, mais tarde, a altura destes postes foi reduzida (ver outra foto mostrada pelo Luiz D' no Multiply).

A segunda foto, ainda acima, de 18 de março de 1919, mostra parte dos estragos feitos pela grande ressaca e o início das obras de recuperação. Em decorrência destes estragos, o governo do prefeito Paulo de Frontin decidiu fazer o alargamento da pista da Avenida Atlântica, incluindo, finalmente, a calçada junto à areia. Esta foto mostra uma cena muito semelhante à foto mostrada pelo André Decourt. Chamo atenção para o restos da pavimentação de "macadame asfáltico" e para um dos velhos postes estilo lampião de gás, um pouco adiante.

As 2 fotos seguintes, abaixo, mostram as obras de alargamento, já bastante adiantadas, durante visita feita por autoridades em 16 de junho de 1919. A terceira foto é quase no Leme, e mostra o que seria o segundo Posto de Observação, que ainda não tinha sido transferido para a nova calçada. Acredito que tenha sido feita neste alargamento a mureta de concreto e granito que constituia o acabamento arredondado da calçada junto à areia, e que é, hoje, o meio fio do calçadão junto dos prédios. Um detalhe interessante: o cavalo ainda era meio de transporte (muito útil, aliás, com um piso destes). A data está rasurada, mas o ano não pode ser outro: é 1919.

A última foto mostra outro trecho, onde as obras estavam quase concluídas. Aqui faltam apenas acabamentos, principalmente os novos postes nos canteiros centrais. O Posto de Salvamento, que parece ser o 5 (ou talvez o 4), já está na nova calçada, mas é muito mais alto que os mostrados no Leme. Altura de coisa de circo. Não sei se todos os postes foram aumentados, ou se alguns eram mais altos que outros. De qualquer forma, o tempo para o banhista descer lá de cima e correr até a água era suficiente para qualquer vítima morrer afogada. Só funcionaria bem se o papel do "indivíduo" fosse apenas o de dar o alarme. Não foi à toa que os postes instalados alguns anos mais tarde eram muito mais baixos, como já comentei acima.

Como detalhes, nestas 2 últimas fotos, vejam os pequenos postes provisórios que levavam um par de fios ao longo de toda a praia (na areia, junto à calçada). E também, nas 2 fotos, a ausência dos lampiões de gás, que devem ter sido retirados durante a obra.

(Todas as fotos feitas por Augusto Malta)






Escrito por Flávio Sertã Furtado de Mendonça em 19/06/2006
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